
No silêncio,
redenção da minha alma,
encontro o caminho de volta.
O ponto alto de Rapsódia em Agosto, filme do diretor Akira Kurosawa, foi o desempenho impecável e doce da atriz Sachico Murase, interpretando Vovó Kane.
Numa cena entre tantas cenas belíssimas, Vovó Kane recebe a visita de uma velha amiga.
Durante horas a fio elas permanecem em silêncio. As palavras são desnecessárias.
E a cena encantadora me levou de volta ao passado, quando recebíamos, em casa, a visita do compadre japonês.
Corre-corre. Agitação. Todos a postos para receber a visita especial.
E o compadre, tão simpático, vinha do sítio, trazendo duas enormes cestas de vime transbordando de uvas “Itália” dulcíssimas, poncãs imensas e saborosas, verduras e legumes fresquinhos e doces japoneses. Era um presente para os amigos da cidade. Uma lindeza!
Cumprimentava, entregava a cesta e sentava-se no sofá.
Cruzava os braços atrás da cabeça, estampava um largo sorriso no rosto e assim permanecia, por algumas horas, sem dizer palavra.
Os pobres ocidentais, meus pais, falavam sobre o tempo, chove não chove, sobre o plantio de soja, trigo, feijão, arroz, tremoço, milho, tomate, jiló e o escambau.
Falavam sobre a pesca das tilápias, piaparas, pacus, jurupocas, piracanjubas, piaus flamengos e piaus de três pintas.
Perguntavam pela comadre e pelos filhos, um a um, para não faltar assunto.
Uma hora depois, meus pobres pais estavam com a garganta seca de tanto tagarelar sobre temas diversos, e o compadre, refestelado no sofá, sorria e ria, concordando ou discordando com um movimento calmo de cabeça. Nada mais.
Um lanche farto era servido. Costume da casa. O compadre comia em silêncio, olhando para um e para outro, sempre sorrindo.
Após a refeição, os ocidentais, meus pais, vasculhavam o cérebro em busca de mais algumas toneladas de frases para preencher a quietude perturbadora.
E ao final da tarde, o compadre batia as mãos nas coxas, levantava-se do sofá, agradecia a hospitalidade e partia.
Portas fechadas, o silêncio navegava à deriva pela casa, sem forças para romper a exaustão provocada pelo tsunami de palavras.
Eu era uma criança naquele tempo, e, no entanto, já compreendia o pavor que a maioria das pessoas sente diante do silêncio.
Vida a fora, ganhei terrores e preenchi, de forma aflitiva, preciosos momentos de silêncio com palavras banais e sem sentido.
Demorei a compreender a amplitude do silêncio e sua força.
Vovó Kane sabia que na quietude dos dizeres compreendemos verdades e mentiras.
O compadre japonês sabia que os maiores diálogos são travados na mais profunda calmaria, de alma para alma, sem a necessidade das palavras.
E hoje eu sei, que somente no silêncio, posso escutar a música da qual sou feita e sentir o coração do universo pulsando dentro do meu próprio coração.
Valéria Nogueira Eik






















