O SILÊNCIO INCOMODA?


No silêncio,
redenção da minha alma,
encontro o caminho de volta.


O ponto alto de Rapsódia em Agosto, filme do diretor Akira Kurosawa, foi o desempenho impecável e doce da atriz Sachico Murase, interpretando Vovó Kane.
Numa cena entre tantas cenas belíssimas, Vovó Kane recebe a visita de uma velha amiga.
Durante horas a fio elas permanecem em silêncio. As palavras são desnecessárias.
E a cena encantadora me levou de volta ao passado, quando recebíamos, em casa, a visita do compadre japonês.
Corre-corre. Agitação. Todos a postos para receber a visita especial.
E o compadre, tão simpático, vinha do sítio, trazendo duas enormes cestas de vime transbordando de uvas “Itália” dulcíssimas, poncãs imensas e saborosas, verduras e legumes fresquinhos e doces japoneses. Era um presente para os amigos da cidade. Uma lindeza!
Cumprimentava, entregava a cesta e sentava-se no sofá.
Cruzava os braços atrás da cabeça, estampava um largo sorriso no rosto e assim permanecia, por algumas horas, sem dizer palavra.
Os pobres ocidentais, meus pais, falavam sobre o tempo, chove não chove, sobre o plantio de soja, trigo, feijão, arroz, tremoço, milho, tomate, jiló e o escambau.
Falavam sobre a pesca das tilápias, piaparas, pacus, jurupocas, piracanjubas, piaus flamengos e piaus de três pintas.
Perguntavam pela comadre e pelos filhos, um a um, para não faltar assunto.
Uma hora depois, meus pobres pais estavam com a garganta seca de tanto tagarelar sobre temas diversos, e o compadre, refestelado no sofá, sorria e ria, concordando ou discordando com um movimento calmo de cabeça. Nada mais.
Um lanche farto era servido. Costume da casa. O compadre comia em silêncio, olhando para um e para outro, sempre sorrindo.
Após a refeição, os ocidentais, meus pais, vasculhavam o cérebro em busca de mais algumas toneladas de frases para preencher a quietude perturbadora.
E ao final da tarde, o compadre batia as mãos nas coxas, levantava-se do sofá, agradecia a hospitalidade e partia.
Portas fechadas, o silêncio navegava à deriva pela casa, sem forças para romper a exaustão provocada pelo tsunami de palavras.
Eu era uma criança naquele tempo, e, no entanto, já compreendia o pavor que a maioria das pessoas sente diante do silêncio.
Vida a fora, ganhei terrores e preenchi, de forma aflitiva, preciosos momentos de silêncio com palavras banais e sem sentido.
Demorei a compreender a amplitude do silêncio e sua força.
Vovó Kane sabia que na quietude dos dizeres compreendemos verdades e mentiras.
O compadre japonês sabia que os maiores diálogos são travados na mais profunda calmaria, de alma para alma, sem a necessidade das palavras.
E hoje eu sei, que somente no silêncio, posso escutar a música da qual sou feita e sentir o coração do universo pulsando dentro do meu próprio coração.


Valéria Nogueira Eik

PROSPERIDADE


- Aqui ele não entra!
O grito enérgico e cheio de ódio ecoou pelo adro da igreja e o cortejo fúnebre estacou atônito.
Os homens depositaram o caixão sobre os paralelepípedos, tiraram seus chapéus, limparam o suor com os lenços muito brancos e ficaram esperando a próxima cena.
A viúva, Dona Marocas, era conhecida por possuir língua afiada, mas anestesiada pelo sofrimento, apenas olhou o pároco com desdém e perguntou:
- Não entra por que?
- Ele é um suicida! Na minha igreja não tem lugar para covardes!
- Padre! Meu Joaquim era um bom homem e muito católico. Deu dinheiro às pencas para a sua igreja. Freqüentou todas as missas. E agora, quando ele mais precisa das suas orações e do perdão de Deus o senhor lhe vira as costas? Que tipo de religião é esta, afinal?
- Dona Marocas! O seu marido não pensou nas leis de Deus quando tirou a própria vida. Não tem perdão. Tirem logo este pecador da frente da minha igreja!
O burburinho era medonho.
Os filhos e amigos do Joaquim contavam uma multidão aflita.
Os curiosos, de passagem ou não, olhavam consternados ou divertidos.
E o padre, parecendo ter sofrido uma ofensa pessoal, deu a ordem final.
- Fora daqui com este pecador!
De dentro da algazarra surgiu Afrânio, político influente na região.
Sorriso amplo e gestos largos, ele não perderia a chance memorável de angariar votos e popularidade.
- Padre! Um momento, por favor! Podemos conversar?
O pároco, sagaz e malicioso, assentiu com um gesto de cabeça e indicou o interior da igreja.
E alguns minutos depois, o coroinha abriu as grandes portas do templo, e o cortejo fúnebre pôde finalmente entrar.
O representante de Deus estava no altar, paramentado com as roupas adequadas para a ocasião. Ao seu lado estava Afrânio, o representante do povo, ar compenetrado, muito sério e pronto para receber os agradecimentos e os votos nas próximas eleições.
O sermão medonho, cheio de labaredas e cheiro de enxofre, deixou a multidão indignada.
Dona Marocas pediu perdão a Deus pelo desejo intenso de pisotear o padre até à morte.
E não se contendo, deu uma cusparada no chão brilhoso e imaculado.
O padre quis interromper a oração, mas o olhar de Afrânio fez com que ele fingisse ignorar o gesto da viúva.
Terminada a cerimônia fúnebre, Dona Marocas se levantou, muito abatida, e dirigiu-se lentamente em direção ao político.
- Obrigada, Afrânio. Joaquim era muito religioso, você sabe. Seria uma grande tristeza para ele não receber a benção de Deus.
- Foi um prazer poder ajudar, Dona Marocas.
- Obrigada, mais uma vez. E quanto ao senhor, padre, que Deus tenha piedade da sua alma!
O pároco enrijeceu ainda mais a fisionomia e o ódio minou por todos os seus poros, mas ficou em silêncio.
Seis meses se passaram.
A igreja sorri envaidecida. Está mais bela que nunca. Totalmente restaurada, muito branca, abriga imagens de todos os santos, verdadeiras antiguidades.
E ao lado, na casa paroquial, um padre bem nutrido, exibe, sem o menor pudor, a barriga saliente da prosperidade.
Amém.


Valéria Nogueira Eik

O CIRCO


Uma agitação surgiu na entrada do lugarejo e seguiu pelas ruas, feito procissão da Virgem Maria.
- É o circo! Chegou!
Veio cheio de pompa, tentando mostrar uma imponência que só causava furor naquela cidade minúscula e pobre do interior.
As crianças corriam atrás dos caminhões cheios de tranqueiras toscas gritando pontos de exclamação. Estavam recepcionando os reis do riso com os seus melhores sorrisos.
Enfim, o circo começou a tomar forma.
A ferragem ficou em pé, e, sobre ela, a grande lona cheia de furos se deitou.
O chão de terra, coberto de pó de serra, encheu-se de estrelas em pleno meio dia.
A pobreza, aos poucos, delineava as cores desbotadas do circo, a magreza dos palhaços e as formas nada exuberantes das mulheres.
A intensa atividade era seguida de muito perto pelos olhos curiosos e ansiosos dos meninos e das meninas.
- Não mexe aí, moleque!
E o palhaço, vestido de gente, dava uma carreira no guri que espiava muito mais do que podia.
Os martelos socavam pregos e dedos.
As arquibancadas se amontoavam umas sobre as outras e quase caíam no colo do picadeiro.
Mas a noite prometia alegria.
Heleninha, muito tímida em seus dez anos, a tudo observava, de longe.
A realidade, a partir daquele momento, cedeu lugar à fantasia, transformando o cotidiano sofrido dos artistas circenses em exuberante aventura.
As roupas surradas se tornaram ouro sobre azul e os trailers mancos, tendas douradas num oásis. E até o insosso macarrão adquiriu sabor de saciedade e aconchego.
Seu pequeno coração, iniciando a jornada da adolescência, disparou e quase parou diante dos olhos verdes do galã.
Heleninha perdeu a fala nos confins da timidez e o rubor cobriu-lhe o rosto denunciando pensamentos.
Correu para casa, tropeçando na vontade de fazer parte daquele universo sem fronteiras.
Estava apaixonada.
Fechou-se em seu quarto visualizando o amor e a felicidade.
Quando o dia amanheceu, Heleninha voltou ao circo.
Queria ver o rei em seu habitat natural. E logo ele apareceu, vestido em roupa tresnoitada, a cara remelenta de sono, mas encantador.
- Você já assistiu ao espetáculo?
A voz da menina tremeu na garganta, arrastou-se numa longa e penosa viagem e quando atingiu o ar, nada mais era que um silêncio absoluto.
Voltou para casa, levando no coração apaixonado mais um item perfeito para a sua ilusão: a voz do galã.
Perdeu a noção do tempo e em sua inocência de menina acreditava que o circo ficaria, para sempre, plantado naquela cidade esquecida por Deus.
Foi com espanto e dor que numa manhã qualquer, enxergou o grande espaço vazio, onde somente algumas galinhas ciscavam num resto de pó de serra.
O rei tinha ido embora. O castelo sumira como por encanto.
Heleninha seguiu para casa, pálida e triste, como uma viúva de pouco tempo.
Fechou-se mais uma vez em seu quarto e as lágrimas molharam a realidade crua da sua primeira decepção.
Mas amargura de gente pequena não tem consistência e sobrevive por um período tão curto que mal dá tempo de sofrer.
A vontade de seguir com o circo, para onde quer que ele fosse, desapareceu assim que um novo filme de amor estreou no cinema.
“Dio come ti amo!”


Valéria Nogueira Eik

HAICAIS

I

NAS HORAS TARDIAS
UIVOS DE LOBOS ECOAM.
CORDEIROS VIGIAM.


II

DO ALTO DA TORRE
UMA CORUJA ESPREITA:
PRELÚDIO MORTAL.


III

O SAPO DO BREJO,
EM POSE DE MAJESTADE,
ENGOLE OS TOLOS.


IV

BEBEM SEIVA RUBRA
OS VAMPIROS AMORAIS.
DEFECAM DECRETOS.

Sentença irrevogável


A chuva castiga o asfalto.
O carro veloz finge não se dar conta do perigo.
Desliza de encontro ao imprevisto.
E tudo acontece rapidamente.
O cavalo emerge das brumas. Um baque. E a escuridão engole a vida.
Silêncio.
- Que frio! Que frio terrível!
O frio adormece num sono sem cores.
Um solavanco desperta a calmaria.
E ligeiras recordações vêm à tona: a velocidade, o medo, o nada.
- O que está acontecendo? Está escuro aqui. Que lugar é esse?
A grande gaveta abre-se para a claridade.
- Onde estou?
Ninguém responde.
O cheiro de sangue é enjoativo. As náuseas alcançam a garganta.
Os pedaços, unidos por um resquício de pele, são acomodados na maca muito fria.
Remendos na cara, remendos nas mãos, remendos por tudo.
A dor parece não ter fim.
O terno preto e elegante veste o corpo em farrapos.
- Esqueceram os sapatos. Os sapatos! Onde estão os sapatos?
Nova gaveta. Tão macia. Um pouco de conforto e calor, finalmente.
Mas as flores incomodam. Têm cheiro de defunto.
As vozes cochicham e se lamentam.
- De quê? De que se lamentam?
Os soluços da Ana são inconfundíveis. E o choro dos meninos também.
Até o Paulão está chorando. Dá pra ouvir.
- Grande amigo, o Carlos. Vai fazer muita falta!
- Falta? Por que? Estou aqui, pessoal! O que está acontecendo?
Rostos tristes passam pelo morto ignorando o seu espanto.
A tentativa de um grito engasga na impotência.
Um último olhar é a despedida, seguida pela escuridão.
- Abram! Abram! Quero sair daqui! Socorro!
Um baque surdo no concreto.
Mais um movimento para a direita.
Os sons metálicos das pás cimentam a vida.
E os derradeiros ruídos vão embora.
Restam os vermes famintos.
O corpo estremece diante da compreensão.
E o desespero urra diante do irrevogável.


Valéria Nogueira Eik

Notícias


Do fundo de uma serenidade moldada pelo tempo, ela ouviu o interfone chamar estridente.
Caminhou sem pressa, pois há muito deixara de correr por coisa nenhuma.
Os braços faziam um movimento pendular, tranqüilo, acompanhando o gingado da alma, finalmente em paz.
A campainha esbaforida gritou mais uma vez, numa urgência inexplicável, sem que com isso, os passos se apertassem em ansiedade ou mesmo excitação.
No portão, uma sombra irrequieta anunciava o homem da correspondência em sua bicicleta azul e amarela.
A carta estendida na mão agitava-se demonstrando pressa.
E ela ponderou, do alto da sua calma, o quanto ele ainda precisava aprender sobre esperas.
O envelope deslizou pelas grades do portão, foi pinçado por seus dedos pálidos, que se tornaram, de repente, muito mais pálidos.
A letra. Meu Deus! Sim, era a mesma letra. Há quanto tempo!
Fechou os olhos e apertou o remetente de encontro ao peito arquejante, como se fosse um abraço, uma explicação, um regresso.
As nuvens encobriram o sol.
A tarde, o carteiro e a bicicleta se tornaram sombras somente.
E a vida, ah, a vida! Deu meia volta ao passado, encolheu-se numa dor conhecida, assustando a calmaria, afastando a prudência e deixando vir ao mundo, novamente, palavras de amor há muito esquecidas.
Tanto tempo!
A letra regular mantinha o mesmo ritmo cadenciado do machado que sangra e abate a árvore, golpe por golpe.
O que diria ele depois de um tempo quase infinito?
Abraçou a carta uma vez mais.
E permaneceu, por momentos intermináveis, acariciando a incerteza.
Vivenciou a saudade imensurável, as preces ignoradas, a espera dilacerante.
Deixou-se inundar por silêncios. Aquietou-se e sorriu.
Rasgou o envelope em minúsculos pedaços, e espiou, aturdida e alegre, a chuva de papéis picados que caíam pelo chão.


Valéria Nogueira Eik

NA JANELA


Lindalva passava os dias com os cotovelos fincados no parapeito da janela.
E antes que o sol, ainda cheio de preguiça, despontasse no horizonte, ela já sentia na pele o seu tépido calor.
Sorria.
Ouvia os passos rápidos do Joaquim em direção à quitanda.
Ouvia os passos lentos da Ernestina em direção à igreja.
Escutava a algazarra da criançada indo para a escola.
Os cães vadios perambulavam pelas calçadas e remexiam lixeiras.
E sem fazer qualquer esforço ela percebia, lá muito longe, o sacolejar da carroça do Orlando.
Sabia que os cavalos estavam velhos e cansados, pois, volta e meia, tropeçavam nos paralelepípedos fugindo ao compasso do chicote.
Ouvia a Madalena cantarolar suas modinhas antigas num lamento de fazer dó.
Conhecia a todos, um por um.
Sabia das suas dores, alegrias e esperanças.
Sabia de todas as doenças, de todas as mortes e nascimentos.
Parecia controlar o destino daquela gente que desfilava diante da sua janela.
- Lindalva! Ô, Lindalva! Vem ajudar aqui, criatura!
- Tô indo, mãe!
E por alguns instantes a moça desaparecia.
Voltava esbaforida, pouco tempo depois, como se lhe faltasse o ar, como se lhe faltasse o chão, como se lhe roubassem pedaços de vida.
E os pobres cotovelos se acocoravam no parapeito da janela sem outra escolha que não fosse aquela.
A bicicleta do Jorge passava chispando. Ele precisava entregar as compras feitas no mercado. E a entrega era grande. O rapazola suava e pedalava rumo à casa da Filomena.
Por certo ela daria um grande jantar naquela noite. Diziam que sabia dar festas como ninguém.
Lindalva sentiu a boca se encher de água ao imaginar a leitoa assada, a pururuca crocante por sobre o lombo da porca, o arroz soltinho e muito branco. Imaginou o sabor dos vinhos, tão perfumados! Delícias que nunca faziam parte da sua mesa.
E o dia prosseguia a jornada rotineira, sem sustos, quase sem surpresas.
Dona Ernestina voltou da igreja. Estava mais leve. Deixara os pecados aos pés de Nossa Senhora.
As crianças, em bandos, retornavam da escola.
E o cheiro de água de colônia voejou pelo ar quando Jeová parou em frente ao portão e ficou a olhar para a moça da janela.
- Olá, moça bonita!
Moço perfumado, esse Jeová. Advogado. Paixão recolhida de Lindalva, que suspirava e corava ante a saudação do rapaz.
A tarde quente mostrou Ana e Maria, as gêmeas solteironas.
Trouxe por aquelas bandas o vendedor de vassouras e a sua cantilena sempre igual.
- Olha a vassoura! Vassoura! Olha a vassoura!
Mostrou o carteiro e o vendedor de alho.
E o sol, cansado, bocejou e sumiu lentamente nos confins do mundo.
- Lindalva! Ô, criatura! Tá anoitecendo! Fecha essa janela!
- Já vou! Já vou!
Mas a moça bonita não foi.
Queria sentir a brisa cálida roçando em seu corpo quando a lua despontasse no céu. Queria ouvir os murmúrios de amor que ecoariam noite adentro. Queria imaginar o céu apinhado de estrelas.
Ah, as estrelas! Como deveriam ser belas as estrelas!


Valéria Nogueira Eik

PÁTRIA AMADA


Onde estaria seu erro, ou quem sabe, seu pecado?
Não conseguira se apaixonar pela vida. Bem que tentara.
Não fora possível cravar raízes no solo.
E mesmo parindo seu próprio chão, ainda assim era vento, era tempestade, sem nunca voltar à calmaria.
Desejava que os dias se esgotassem ligeiros para reencontrar o velho caminho de casa.
Expatriada, banida de seus legítimos ideais, sobrevivera aos dias banais e sem sentido.
Poucos sabiam. Talvez entendessem. Ficavam calados.
Muitos não compreendiam. Enxergavam a pele risonha, somente a superfície.
Poucos ou muitos, ninguém teve dela a verdadeira essência.
Viveu, esperneou, sobreviveu. Acalmou-se.
Não acreditava em rupturas.
Poucos diziam que romper os laços com a vida era coragem.
Outros diziam que apertar esses laços, isso sim, era valentia.
Ela apenas sorria aquele riso indecifrável e se deixava ficar um pouco mais.
Viveria para olhar o mar e suas ondas indecisas que sempre iam para lugar nenhum e voltavam sem ter partido.
Desnudaria os pés para sentir a textura da terra árida esperando por melhores dias.
Assistiria ao nascimento e à morte do sol em agonia diária e sem fim.
Sim. Ela ficaria um pouco mais.
Talvez, em meio aos dias, surgisse uma noite que despertasse nela a verdadeira razão para partir.
Ou quem sabe, em meio às noites, surgisse um dia que produzisse a ambição de querer ficar!
Que o tempo a arrastasse por caminhos diversos e a amarrotasse de rugas!
Mas que gritasse aos quatro cantos:
- Não houve erro! Não houve pecado!
Ela teria esboçado um sorriso feliz.
Todos teriam compreendido, enfim, os seus motivos ou a falta deles, o ranger de dentes e a solidão.


Valéria Nogueira Eik

VEZ OU OUTRA


Vez ou outra ela pensa na morte.
Ora próxima, ora distante.
Durante um último sonho ao amanhecer.
Durante um ataque de tosse na madrugada.
Ou durante um momento de amor ao entardecer.
No entanto, não tem pressa nem curiosidade.
Não faz questão de ir. Muito menos ficar.
Vive o presente. Um dia de cada vez.
Mais que um dia seria desastroso. Inatingível.
Avistou a fome intensa na barriga dos miseráveis.
Avistou o abandono nos olhos tristes dos inocentes.
Avistou todas as tragédias nos dias magros dessa pobre vida.
Na alma nenhum espaço restou para a esperança.
Entretanto tem ainda um desejo.
Se escolha houvesse gostaria de morrer num dia ensolarado.
Morreria serenamente no meio da rua, cercada de pessoas apressadas que, vencidas pela curiosidade, adiariam suas atividades inúteis para escutar a voz do silêncio.
A morte inundaria o asfalto e a indignação tomaria conta do burburinho.
- Morreu?
- Que desaforada! Ousou morrer sem motivo!
Chamariam os policiais. E os jornalistas esbaforidos também viriam para documentar tamanho disparate.
E ela, deitada para sempre, estaria rindo da miséria humana, finalmente liberta dos dias mesquinhos da vida.


Valéria Nogueira Eik

HAICAIS

I

PEDAÇOS DE CÉU
NO BALANÇAR DESSA REDE
PAIOL ESTELAR


II

OS VENTOS DE JUNHO
CINGEM AS FOLHAS CANSADAS
AVES OUTONAIS


III

UM RISCO NO CÉU
A ESTRELA SE DESFAZ
NUM SONHO SUTIL



Valéria Nogueira Eik

Mágicas sombras! Sussurram respostas.

Seguir é preciso. Perder-se é imprescindível.

Patriotismo, ainda que e apesar de!

O sábio interior

Entardecer


Sob a luz do dia mirava o vai e vem das ondas.
Não sentia solidão e não queria outra vida.
Bastavam a visão do mar, o barulho das gaivotas, o cheiro de maresia.
Bastavam a visão do horizonte, a areia sob os pés, a espera, o reencontro.
E ao entardecer ele vinha, dourado como o sol, singrando as águas, percorrendo estradas conhecidas, tal e qual um deus.
Saltava sobre as pequenas ondas, trazia o barco para a segurança e sorria.
Estava em casa.
E sob a luz da lua eles se amavam.
Adormeciam saciados, braços e pernas enroscados e trançados como as redes do pescador.
Não queriam outra vida.
Bastava o dia, bastava a noite, bastava o mar.
Bastavam-se.
O sol novamente vinha ao mundo e o pequeno barco retornava ao oceano.
Vez por outra ela mergulhava nas águas e ganhava o mar profundo.
Voltava lentamente, não tinha pressa. O entardecer estava distante.
Percorria a praia, sorria para as crianças e fincava os olhos no horizonte.
Acompanhava o cansaço do sol e sua morte nos despenhadeiros do mar.
Avistava o barquinho, sumindo e reaparecendo ao sabor das ondas, abarrotado de peixes, trazendo o deus que era a razão da sua idolatria.
Naquela noite, mais uma vez, adormeceram abraçados.
As estrelas, incrustadas nas frestas do telhado de palha, embalaram os sonhos de amor.
E quando a noite se fez dia, novamente a pequena embarcação singrou os mares, gingando e sumindo nas águas do mar.
O entardecer se fez presente ansiando pelo reencontro.
Uma estrela saudou a noite.
Mais uma estrela apareceu.
E todas as estrelas cobriram o céu.
Ela ficou em silêncio, escutando a voz da brisa e o lamento do mar.
Entendeu.
Não mais enxergou o vai e vem das ondas, não escutou o barulho das gaivotas, não sentiu o cheiro de maresia.
Compreendeu a solidão e desistiu da espera.
Mergulhou a saudade nas águas profundas e nadou em direção aos despenhadeiros do oceano.

Valéria Nogueira Eik

Alegria cansada

AQUELA MULHER


Aquela mulher caminhando pelas ruas dava-me a sensação de desconsolo.
Seus passos, apesar de firmes, tinham um quê de tristeza, talvez desespero.
E não pude deixar de segui-la.
Rua após rua, eu quase pisava em seus calcanhares.
Quarteirão após quarteirão, nossas sombras quase se confundiam.
O que ela carregava no peito que me afligia sobremaneira?
Que dor ela acalentava dentro d´alma que machucava a minha própria alma?
Ela seguia muito rápido, quase correndo.
Tropeçou, quase caiu.
Amparei-a com as minhas mãos.
Senti a textura dos seus braços.
Não pude ver-lhe o rosto.
Soltou-se de mim e fugiu.
Corri em seu encalço. Não podia perde-la. Não podia!
Antes perder a minha própria vida!
Estava sendo arrastada pela correnteza da insensatez, nas esteiras do inverossímil.
E não tinha como retroceder. Nem desejava.
Aquela mulher parou diante do bosque frio e nebuloso.
Ofegante, aproximei-me lentamente.
O véu que lhe encobria a face voou nos braços do vento e eu pude ver o que tanto perseguira.
Olhos nos olhos, o espanto tomou-me a fisionomia e chorei.
Chorei pelos dias desperdiçados e pelos gestos incompletos.
Pelas lágrimas reprimidas, pelos sorrisos amordaçados.
Pelos amores mal resolvidos, pelas dores dissimuladas.
Chorei.
E ali estava ela, a mulher, imóvel e triste.
Lançou sobre a vida um último suspiro, envolveu-me com um derradeiro olhar e desapareceu nas garras do tempo.

Valéria Nogueira Eik

TECENDO A VIDA


Veio de algum espaço, passou por outro, esbarrou em algum trecho, aportou por aqui e não sabe ainda se fica ou se vai, se volta ou continua, nesse caminhar que não tem fim.
Mas por ora permanece, se estabelece, sem pensar no amanhã e no que será ou não será.
Somos todos assim, apenas turistas, ou nômades, ou quem sabe extra-terrestres!
Procedemos de algum lugar e agora estamos juntos, reunidos num mesmo tempo, desenvolvendo um trabalho, uma amizade, uma intriga, ódios, promessas e até mesmo um desencontro absoluto e absurdo pelas ruas.
Cada um de nós tem uma estória, um berço, lembranças próprias e, talvez, saudades.
Cada um de nós tem um desempenho, uma luta, pensamentos próprios e, talvez, esperanças.
É mesmo uma grande teia, tecida pelo acaso, produzindo bordados de dor ou enigmas de amor.
Gente colorida, quem sabe idealista, que sorri, que batalha e que nem sempre vence nesse período que corre ao invés de andar.
Gente desbotada, a cara cruzada, os braços fechados, espectros desse tempo, indiferente tempo que continua a correr, arrastando os indecisos e competindo com os lutadores, talvez gladiadores.
Uma belíssima teia, cheia de riscos e traços, lucros e prejuízos, que com o passar da vida se transforma numa obra de arte que poucos entendem.
Um abstrato, uma miscelânea de gente, uma confusão de valores.
Teia de vida, teia de gente, sempre uma trama assustadora, atraente, inebriante, um desafio!

Valéria Nogueira Eik

COMPASSO DE ESPERA


Há muitos anos guardava, a sete chaves, os jogos de chá e café.
Guardava-os para que pudessem ser usados numa ocasião única, absolutamente única e feliz.
A porcelana exibia flores exóticas plantadas num solo escuro, e dois frisos dourados completavam a sofisticação das peças.
Seis xícaras de chá. Seis xícaras de café. Imaculadas. Intactas. Preservadas de mãos embrutecidas ou pequenas mãos descuidadas.
E ano após ano, perfazendo o total de trinta anos, lá estavam os jogos, envoltos em teias de aranhas e esquecimento.
Numa constatação amarga percebeu que guardava as xícaras da mesma forma como guardava seus dias - suspensos num compasso de espera por momentos especiais - momentos que não chegariam nunca, atrelados que estavam ao amanhã.
Vivia entre dois gumes – passado e futuro – e ali, ajoelhada ao lado da porcelana, percebeu que um deles estava morto e o outro, numa gestação infinita.
Lembrou-se de todas as vezes que adiara a felicidade alegando estar ocupada - tão ocupada que não dispunha de tempo para uma brincadeira, um abraço, uma canção, um descanso.
Dobrou-se em dores da alma. Lágrimas abundantes arranharam a poeira das xícaras.
Chorou. Seus mortos idolatrados reviraram-se nas covas, assustados. Não os queria de volta.
Chorou. Seus vivos esquecidos, finalmente lembrados, esboçavam espasmos de alegria.
Decidiu. Os dias seriam vividos em pequenos instantes de sol ou de chuva.
Instituiu o momento presente como único patrimônio concreto e possível.
Deixou que a dor amainasse, que as lágrimas secassem, que o sorriso brotasse.
Estendeu sobre a mesa uma toalha branca, ricamente bordada e ainda cheirando a guardado.
Bolos, pães, frios de vários tipos, geléias, manteiga, chá e café povoaram a mesa.
Bateu palmas, feliz.
Sabia quantos dias vivera. Ignorava quantos mais viriam.
Um ou dois, três ou muitos, todos eles seriam únicos.
Sentou-se pela primeira vez à cabeceira da mesa, lugar de honra, seu lugar.
Serviu-se de chá. Serviu-se de café. Serviu-se de contentamento.
E esperou.

Valéria Nogueira Eik

MELODIAS EM UNÍSSONO


O vento corre pelo canavial provocando um ruído muito parecido com chuva.
Olho para a folhagem verde que se agita sob a ventania e desejo sentir felicidade.
É bom estar aqui, na quietude do campo, embora o silêncio traga desassossego à minha alma tão acostumada ao movimento frenético da cidade.
As lembranças chegam e se deitam aos meus pés criando uma atmosfera irreal, onde passado e presente cantam em uníssono a melodia das horas.
Onde estão todos eles?
Vejo, por entre as brumas do tempo, minha avó sorrindo e chamando para o almoço.
Sinto o cheiro do carneiro assado, do arroz de visita, muito branco e brilhante.
Ouço as risadas da família. E naquele momento tudo é contentamento dentro da casa em festa.
O mugido do gado, atrás da mata, espanta as suaves visões e reforça a sensação de nostalgia.
Os avós não mais fazem parte da vida.
Seguiram serenamente o ritmo do desgaste e partiram.
Sinto uma vontade dolorida de abraçar minha avó.
Somente agora estou pronta para entender a grandiosidade dos seus gestos e das suas poucas falas.
O desencontro natural das gerações impossibilitou as longas conversas que teriam facilitado escolhas.
Mas é inútil querer segurar o tempo que desliza através das noites e traz mais um dia, mais um dia, mais um dia...
Aqui, neste pedaço de terra vermelha, meus passos se confundem com os passos da avó.
E admirada percebo que meus temores são os mesmos temores que habitaram o coração daquela mulher.
Minhas alegrias, tão tenras, apenas pequenos instantes de prazer, são as mesmas alegrias da grande mãe, que nunca chegaram a se tornar felicidade.
Constato que a vida é curta e que as preocupações são tolas, pois o destino segue inexorável.
Sinto saudade do tempo que se foi.
Ouço a voz da minha avó, da minha mãe, das tias e a minha própria voz cantando baixinho a canção que soluça em meio à saudade.
“Lampião de gás, lampião de gás, quanta saudade você me traz”.
Entôo a música vezes sem fim e derramo o choro da criança que habita meu corpo de mulher.
Vejo o entardecer caminhar pelo céu e pincelar de vermelho o horizonte.
Enxergo a primeira estrela e os primeiros vagalumes.
Penetro na escuridão da noite e reverencio a lua.
Risco, no imaginário, um grande círculo e chamo por elas.
Uma a uma, de todos os cantos do tempo, as mulheres da família retornam e tomam seus lugares na roda.
E cantamos, em uníssono, a melodia do único reencontro possível.

Valéria Nogueira Eik

ALMAS


Eram almas, sim, eram almas.
Roçavam em meu corpo como vento frio de inverno
e meus pelos se eriçavam
e uma lambada de fogo corria garganta abaixo.
Dançavam ao som de muitos lamentos
seus próprios lamentos
e as lágrimas subiam aos céus
parecendo neblina pronta a desandar em garoa
ou preces.
E todas as noites elas vinham
cada uma de um canto qualquer
uma pequena multidão quase transparente.
Chamavam por mim.
Eu fingia não ouvir
não sentir
não querer.
Mas elas chamavam, chamavam por mim.
E no jardim, por entre as árvores, esperavam.
Perdiam-se em meio ao branco dos pequenos jasmins
e reapareciam sobre o gramado muito verde
parecendo brincar.
Nutriam-se do perfume das flores
tão brancas
irmãs da mesma cor.
Acostumei-me à dança
aos lamentos
à presença.
Não mais podia viver sem as almas.
E quando elas se foram, eu chamei, supliquei, implorei.
Entre garoas e preces, misturei-me aos jasmins
e esperei.
Por quantos dias, não sei.
Mas compreendi.
Eram almas, sim, eram almas!
Pequenas almas muito brancas.
Almas de colibris.


Valéria Nogueira Eik

Visão pseudo-poética de uma dona de casa



Immondezza

Brotas do nada como se fosses erva daninha.
E te ergues numa nuvem de pretensiosos fragmentos buscando a liberdade.
Não permitirei!
Seremos escravos e senhores, sem seqüência, sem coerência.
Dançarás acorrentada ao ritmo dos ventos, pairando eternamente no meio do caminho.
Não morrerás, eu sei.
Não me matarás, tu sabes.
No entanto, não viveremos.
Sobreviveremos, apenas.
Tu, aos pedaços, nos cantos obscuros.
Eu, aos trancos, nessa luta sem fim.
Sconfinata immondezza!


Mein liebe küche

Tu me olhas envergonhada como se pedisses desculpas.
E embora sabendo que não tens culpa de nada, dou as costas ao teu constrangimento fingindo indiferença.
O desânimo toma conta dos meus dias nesses dias nada pródigos e fujo das tuas cores e dos teus odores como vampiro apavorado diante da luz do sol.
Um resto de lucidez me aborda e retorno para junto de ti. Inevitável.
Deixo que a água escorra e suavize tuas superfícies, teus lados côncavos e convexos, tuas pontas e teus disparates.
Separo tuas partes em mil partes indistintas e ensebadas numa divertida esquizofrenia.
Fricciono tuas opacidades até que se tornem transparências.
E ao final, quando penso que é o final, tu me mostras ainda uma minúscula colher de chá incrustada no ralo encardido e para sempre maculado.
Te encontras agora num estado de suficiente graça, apta para mais um banquete ou simplesmente pronta para o vai e vem dos pequenos goles de café ou de água.
E eu, envolta num halo de pseudo- ingenuidade, me afasto de ti com ares de adeus, de “au revoir”, de “sayonara” e mais definitivo que nunca “auf wiedersehen mein liebe küche”

Valéria Nogueira Eik

Rosas Vermelhas


A rosa vermelha e o sorriso cativante foram entregues ao final do dia.
Amélia, olhos baixos, fez um muxoxo de menina e tentou alongar a mágoa.
Encarou o riso inocente e esqueceu as palavras rudes da noite anterior.
A rosa era tão linda!

Duas rosas vermelhas foram entregues no início da noite por um sorriso suplicante.
Amélia exibia um pequeno corte na boca. Derramou soluços incontidos e mais algumas lágrimas.
Olhou as rosas. Sorriu tristemente. Desculpou a ressaca matinal.

Três rosas vermelhas foram entregues, quando duas ou três estrelas salpicavam o pedaço de céu que se condensava diante da janela.
Amélia, deitada na cama, invadida por todas as dores, relutava em perdoar.
O sorriso dele, quase paternal, delineava motivos e a absolvição das culpas.

Quatro rosas vermelhas foram entregues quando a madrugada cobria a cidade.
Amélia, amontoada no chão, ainda recolhia os cacos do próprio corpo.
O riso infantil implorava por perdão e afagos.

Cinco rosas vermelhas foram entregues, quatro ou cinco dias depois, por um par de olhos desesperados.
Amélia, de malas prontas, queria ir, queria ficar.
As marcas arroxeadas e a pele costurada começavam a ganhar tons suaves.
E suaves ficaram as dúvidas.

Seis rosas vermelhas foram entregues por um sorriso impessoal.
Amélia, agasalhada por outras tantas flores e pelo brilho das velas, não pôde ver nem perdoar.


Valéria Nogueira Eik

Dualidade incontestável


Não, não! Não é invencionice do povo, não!
Aconteceu e eu vi. Por muitos dias eu vi. Até que sumiu sem aviso e sem explicação.
O dia estava indeciso.
Ora escancarava sorrisos bonachões, daqueles que empurram a molecada para o campinho de futebol, para as pipas no alto da colina, para as bolinhas de gude no chão de terra batida. Ora se fechava em carrancas, amontoava nuvens, trovões e faíscas que riscavam o céu da pequena cidade, fazendo aparecer nas vidraças olhares preocupados e narizes achatados pela curiosidade.
E na indecisão o dia permaneceu até ser empurrado para as trincheiras da escuridão por uma noite límpida, possuída pelo luar da cheia.
E ela, a lua, imensa e sinistra, gemia dolorosamente, se contorcendo e girando em seu próprio eixo, escancarando olhos e boca como se buscasse fôlego para suportar tamanha dor.
Velhos, moços e crianças, todos eles aparvalhados, se amontoaram na praça sem saber o que esperar do momento inusitado. Tremiam.
Abandonaram projetos, o jantar sobre a mesa, a roupa no varal.
Interromperam carícias, discussões e lamentos.
Engoliram indagações.
E calaram as palavras, todas elas.
Pés fincados no solo, olhos pregados no céu, assim ficaram, madrugada adentro, espreitando o silêncio da noite e os uivos da lua.
Por várias vezes chuviscos pegajosos caíram sobre os bancos da praça, sobre a grama viçosa, sobre os cabelos de toda gente.
Era ela, a lua, fazendo jorrar seus suores gelados sobre o mundo.
Em seguida, aquietava-se num descanso mais parecido com o sono da morte.
Intercalou sofrimento e calmaria por horas a fio.
Agitou-se na dualidade própria da sua face plena, deixando transbordar serenidade e mistério.
Inesperadamente, agigantou-se em vermelho sangue e urrou em desespero.
Por segundos, minutos ou horas, ninguém soube dizer, o grito agudo ecoou pelos ares, enregelando almas do mal e do bem.
E pariu um silêncio inquietante.
Ela, a lua, endireitou-se sobre o próprio eixo. Ainda trêmula, sorriu.
Afagou suas crias, duas novas luas, filhas legítimas da sua dualidade incontestável.


Valéria Nogueira Eik

A metamorfose do tempo


A marca de cigarros ainda é a mesma, destrutiva e agradável.
Alguns quilos a mais. Inevitável
Também inevitáveis as rugas que apareceram nos cantos do sorriso, nas frestas do olhar, nas quinas da emoção.
A ansiedade arrastou para muito longe o sono ininterrupto e sereno.
Vez por outra ainda me reconheço como se fora um reencontro, um sonho, uma lembrança.
Momentos fugazes. Fogem num piscar de olhos cedendo lugar ao realismo.
Não se trata de amargura.
É o vento carregando, para além da fantasia, os amuletos da sorte, as guerras inúteis, as palavras delirantes, as promessas descabidas.
Trata-se da compreensão de muitos fatos, da estruturação dos projetos e dos desejos possíveis.
Trata-se do cultivo do amor sem sustos, do sexo elaborado e prazeroso, da troca de olhares que substituem dizeres.
É a vida dosando passos e ambições.
Dentro do único tempo que possuo estudo a bondade esporádica, mas legítima, a culpa sem remorsos e faço escolhas menos mirabolantes.
Percebo as nuances dos jogos com mais clareza e tento blefar um pouco menos.
Talvez, num dia de chuva, eu deixe o cigarro na gaveta e visite velhos lugares.
Talvez, num dia de sol, eu possa falar sobre velhas mágoas.
E quem sabe, num dia qualquer, eu perceba que rancores antigos deixaram de ser rancores.
Pode ser que numa segunda-feira, entre tantas, eu resolva alongar o corpo e suavizar as rugas, descortinar a alma, sem receio, distribuir plácidas essências.
Pode ser que numa determinada noite, olhando o céu e suas estrelas, eu possa compreender as impossibilidades, aceitar o imponderável e avistar novamente a fantasia.
Talvez seja este o reencontro esperado – corpo e alma, solo e semente, razão e emoção.

Valéria Nogueira Eik